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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Contribua para a construção da sede da Centro Cultural Caiçara - Associação dos Jovens da Juréia


O PROJETO
Você sabe o que é ser caiçara? Já ouviu falar na Estação Ecológica da Juréia? Por acaso sabe dançar fandango, sabe o que é uma rabeca ou qual árvore é a caixeta?
Na busca por disseminar o conhecimento desses elementos importantes de nossa comunidade, nós da Associação de Jovens da Juréia (AJJ) iniciamos um projeto de ampliação de nossa sede com a construção do Centro de Cultura Caiçara na Barra do Ribeira, onde sonhamos criar um pólo de vivência e difusão da cultura caiçara para escolas, comunidades locais e visitantes.
Será um espaço para viver a cultura caiçara!
Com a sede, teremos melhor infraestrutura para realizar as atividades que já estão em andamento e possibilidade de contribuir ainda mais para a valorização de nossa cultura. No novo espaço, teremos:
• Criação de peças feitas com a madeira da caixeta (árvore nativa da Mata Atlântica) utilizando técnicas locais de artesanato;
• Venda de produtos das oficinas de artesanato;
• Turismo de base comunitária;
• Oficinas de educação ambiental, cultura caiçara (dança, música, culinária, artesanato, compartilhamento de saber etc) e tecnologia;
• Espaço multimídia;
• Reuniões para estruturar a participação da comunidade nos diferentes grupos e fóruns nacionais na luta pelo direito ao território das comunidades caiçaras da Estação Ecológica da Juréia;
• Desenvolvimento de projetos próprios em três eixos temáticos: sociocultural, socioeconômico e socioambiental; e
• Bailes, festas tradicionais e eventos.
Vindo nos visitar, você poderá vivenciar as danças e músicas do Fandango Caiçara, aprender a fazer uma paçoca de carne seca, interagir através de brincadeiras caiçaras, entalhar objetos em madeira e conhecer o espaço onde os jovens caiçaras poderão criar e aprender com as novas tecnologias.
Após um longo caminho percorrido na construção desse espaço, com muitos mutirões construtivos dos moradores da região, estamos na reta final da obra do Centro de Cultura Caiçara e é aí que você entra!
Queremos inaugurá-lo em 3 meses e você pode nos apoiar para terminar a construção desse espaço e vir viver a cultura caiçara!
Junte-se a nós nessa campanha, seja nosso parceiro nessa iniciativa a favor da cultura caiçara e venha nos conhecer e celebrar essa conquista no Baile Inaugural de Fandango no Centro Caiçara!
Sobre a AJJ
A cultura caiçara é uma manifestação tradicional brasileira muito diversa cultural e ambientalmente. É um modo de ser e viver dos moradores das regiões litorâneas do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, que tem sua tradição baseada na relação com o mar e outros ecossistemas locais, como a Mata Atlântica, manguezal e restinga. A comunidade da Juréia está localizada entre as cidades de Iguape, no Vale do Ribeira, e Peruíbe, no litoral sul de São Paulo.
Em 1986, por um decreto do governo estadual, foi criada a Estação Ecológica da Juréia nesta região e a comunidade caiçara local perdeu o direito de viver em seu território. Com isso, muitas pessoas foram forçadas a se mudar, deixando para trás suas identidades e raízes.
Em busca de valorizar e garantir a continuidade da cultura e território caiçara é que jovens e famílias caiçaras da Juréia criaram, em 1993, a Associação de Jovens da Juréia (AJJ), uma organização não-governamental sem fins lucrativos. As ações da AJJ tem como principal objetivo buscar formas de sustentabilidade integral das comunidades caiçaras, em especial na Juréia.
Ser caiçara é hoje um grande desafio que envolve encontrar formas sustentáveis de garantir a continuidade e valorização da cultura em nossos territórios, áreas cobiçadas pela especulação imobiliária ou protegidas integralmente pelas Áreas de Conservação Ambiental; mas é também uma grande inspiração para a humanidade, um exemplo de modo de vida sustentável, cooperativo e de convivência harmônica com o ambiente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Artigo Publicado na Revista Pegada - Unesp - 2011


A USINA HIDRELÉTRICA DE TIJUCO ALTO (VALE DO RIBEIRA) NO CONTEXTO DOS CONFLITOS GERADOS PELA CONSTRUÇÃO DE BARRAGENS

Laura dos Santos Rougemont, Jorge Ramon Montenegro Gómez



RESUMO




Este trabalho tem por objetivo analisar quais são os desdobramentos dos projetos desenvolvimentistas do setor energético e as interações com os territórios onde eles se instalam, os quais são permeados por populações que em algum momento serão afetadas por estas grandes obras.  Para tal, utiliza-se como mediação as megainfraestruturas do ramo energético, mais especificamente, o estudo de caso da Usina Hidrelétrica (UHE) de Tijuco Alto, situada no Vale do Ribeira, entre os municípios de Adrianópolis (PR) e Ribeira (SP). Dá-se enfoque ao município de Cerro Azul (PR), o qual, de acordo com os estudos ambientais, sofreria grande parte dos impactos da instalação da usina. 

Texto Completo: PDF 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Artigo da Revista de Estudos Avançados (USP) sobre barragens no Vale do Ribeira


Estudos Avançados

Print version ISSN 0103-4014


Estud. av. vol.26 no.74 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142012000100019 

ENERGIA

Transposição e hidrelétricas: o desconhecido Vale do Ribeira (PR-SP)


A. Oswaldo Sevá Filho; Luciana Maria Kalinowski



RESUMO
A Bacia do Rio Ribeira do Iguape, com sua imagem usualmente associada à preservação ambiental, às cavernas, ao extrativismo e aos povos tradicionais (quilombolas, índios, pescadores), é aqui reapresentada, descrevendo importantes áreas geoeconômicas da mineração, das monoculturas comerciais e das obras hidráulicas. O rio principal ainda não foi barrado por usinas hidrelétricas, que estão instaladas nos afluentes e somam uma capacidade elétrica de 540 megawatts. A maior delas, o sistema Capivari–Cachoeira, construído há quarenta anos, é baseada numa transposição de vazões entre a Bacia do Alto Ribeira e o litoral paranaense, com fortes consequências ambientais negativas no trecho paulista do Rio Pardo e do Ribeira, e na Baía de Antonina, não reconhecidas no licenciamento ambiental da usina. É previsível o agravamento da situação ambiental da região, caso se concretizem no futuro outras hidrelétricas previstas para a Bacia do Ribeira do Iguape.
Palavras-chave: Ribeira do Iguape, Usina hidrelétrica, Transposição de vazão fluvial, Impactos ambientais, Sismicidade induzida por reservatórios.

Artigo publicado na Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente


Artigo de Jeronymo, Bermann e Guerra (2012) sobre destinos de populações atingidas (sic) por Tijuco Alto, publicado num livro sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, da Editora UFPR.

Deslocamentos, itinerários e destinos de populações atingidas  por Barragens: UHE Tijuco Alto, SP – PR*
Alexandre Cosme José Jeronymo, Célio Bermann, Sinclair Malett-Guy Guerra
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/made/article/viewFile/25273/18579

quinta-feira, 10 de março de 2011

14 de março de 2011 - Mais um dia de luta para lembrar todos que tiveram suas vidas massacradas pelas barragens

MOAB – MOVIMENTO DOS AMEAÇADOS POR BARRAGENS

FÓRUM EM DEFESA DA REFORMA AGRÁRIA NO VALE DO RIBEIRA

TERRA SIM! BARRAGEM NÃO!

As propostas de implantação de barragens no rio Ribeira de Iguape, tornaram-se válvulas de escape para esconder e mascarar a falta de empenho político na concretização de ações reais para a melhoria de vida do povo do Vale do Ribeira. Os projetos das 4 barragens (Tijuco Alto, Funil, Itaóca e Batatal) tornaram-se bandeiras defendidas e juradas por muitos politiqueiros, na contramão de não assumir o compromisso e o dever que cabe a cada vereador, a cada prefeito e a cada deputado, que é o zelo e a defesa do bem estar da população.

Muitos estudos e casos mal sucedidos provam os enormes impactos negativos na área social e ambiental advindas da construção de barragens. Os exemplos estão claros, visíveis e reais em todas as regiões do país. Não podemos esquecer do rompimento de várias barragens em épocas de chuvas.

Lembramos também que a função exclusiva da Barragem de Tijuco Alto é a de geração e fornecimento de energia para a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) Grupo Votorantim (da família Antonio Ermírio de Moraes), não servindo para acender uma lâmpada que seja na nossa região. Hoje, está prevista mais uma barragem para o Vale do Ribeira paulista e outras três no trecho paranaense, sendo que nenhuma projetada para atender aos interesses da população. Aliás, para atender o interesse da população, bastava melhorar a rede de distribuição, já que o Brasil é um dos países que mais perde energia neste processo.

Para a população do Vale, a construção dessas barragens trará apenas prejuízos:

- Alagamento de cerca de 11 mil hectares de terras nos municípios de Adrianópolis, Cerro Azul, Ribeira, Itapirapuã Paulista, Iporanga e Eldorado, incluindo cavernas de Iporanga e diversas comunidades do Vale do Ribeira;

- Aumento da contaminação por chumbo em toda água do Ribeira abaixo de Tijuco Alto;

- Desemprego de milhares de famílias que vivem da pesca na região estuarina de Iguape-Cananéia-Paranaguá;

- Alteração do regime hídrico do rio com influência sobre a fauna marinha e navegação;

- Sobrecarga no serviço público de saúde, decorrente do êxodo de população de outras regiões.

POR ESTAS RAZÕES EXIGIMOS:

=Fim do projeto de Tijuco Alto!

=Nenhuma barragem no Rio Ribeira de Iguape!

=Fim de promessas eleitoreiras e de mentiras!

=Políticas públicas que valorizem a cultura de todo o povo do Vale do Ribeira, suas águas e a Mata Atlântica!

=Que seja considerado, valorizado e respeitado o conhecimento das comunidades do Vale do Ribeira!

14 de março – Dia Internacional de Luta contra as Barragens

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Gigante NÃO está dormindo...

Estamos acompanhando os passos da CBA aqui no Vale...


Para eles, não importa o presidente, 2011 será o ano de Tijuco Alto...

Não iremos permitir!

A propósito, gostaríamos muito que a CBA, Votorantim e todas as empresas do Grupo declarassem: quem vocês financiaram nestas eleições?

Terra Teremos! Barragens Jamais!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Usina de Problemas

Por Diego Dacax

http://www.rollingstone.com.br/edicoes/42/textos/usina-problemas-grupo-votorantim-cba-hidreletricas/


Detentor da maior área de preservação contínua da mata atlântica brasileira e o pior idh de São Paulo, o Vale do Ribeira se divide entre a promessa de desenvolvimento e a ameaça socioambiental que a construção de uma usina hidrelétrica pode levar à região.



Miguel Erat Woner anda desanimado com a vida, e tem suas razões para tanto: "Se quiser amarrar um cavalo no meu quintal, não dá, tem que amarrar no do vizinho. Aqui não tem espaço pra nada e está tudo desbarrancando. Eu tenho que plantar banana em terreno dos outros. Tenho que depender de favor pra plantar".


O desabafo do senhor de 61 anos vem acompanhado de uma tosse que há mais de cinco meses atrapalha os seus diálogos. A conversa se desenrola em um cômodo que serve de sala, copa e cozinha de uma humilde morada de madeira que nem forro tem. O local é bastante diferente da casa onde Miguel e sua família viviam anteriormente - em uma confortável e bem equipada fazenda em Ribeira (SP), de onde tiravam seu sustento por meio da agricultura. Os Woner só foram obrigados a abandonar essa antiga residência porque parte do local acabaria debaixo d'água.


Miguel e a esposa, Margarida, passaram a vida toda em Ribeira, na divisa de São Paulo com o Paraná. Moravam com os três filhos na fazenda São Pedro, uma das mais bem estruturadas da região. Não gastavam com moradia ou alimentação e ainda ganhavam cerca de quatro salários por mês. Tudo ia bem até que, no final dos anos 80, começaram a aparecer os primeiros barcos motorizados, coisa que, àquela época, nunca havia sido vista no rio que corta a cidade, o Ribeira de Iguape. Soube-se que a Companhia Brasileira de Alumínio, a CBA, braço do Grupo Votorantim, pretendia construir uma usina hidrelétrica na região, denominada Tijuco Alto. Com a barragem, seriam alagadas áreas dos municípios de Ribeira, Itapirapuã Paulista (ambas em São Paulo), Adrianópolis, Doutor Ulysses e Cerro Azul (no Paraná)


Sob a ameaça de ter parte de seu território tomado pelas águas, a fazenda São Pedro foi vendida à CBA, e a família Woner foi forçada a deixar o local em 1992. O dinheiro do acerto de contas foi o suficiente para que comprassem o terreno do casebre onde vivem atualmente, no bairro de Ilha Rasa. Sem condições para plantar, o casal sobrevive com o dinheiro da aposentadoria de dona Margarida. Sem oportunidades de emprego na cidade, dois de seus rebentos tentam a vida em Curitiba. O terceiro filho permanece em Ribeira, desempregado. Mesmo ainda sem ainda ter sido construída, a barragem já atingiu a família Woner. E histórias como essas se repetem com frequência na região.


Palco do drama, o Vale do Ribeira constitui a maior área de preservação contínua de Mata Atlântica do Brasil - com cerca de 2,1 milhões de hectares do bioma. Situada ao sul do estado de São Paulo e ao norte do Paraná, a região possui um dos maiores complexos de cavernas do país, concentrando mais de 270 cavidades. A fauna e a flora locais abrigam diversas espécies em extinção. Parte de sua área está inserida no território da Mata Atlântica sudeste, tombada pela Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade, em 1999. Oito anos mais tarde, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou um projeto, de autoria do deputado Raul Marcelo (PSOL), que também tombava o Ribeira de Iguape, último grande rio sem barragem no estado. No ano seguinte, o governador José Serra (PSDB) o vetou.


Em contrapartida à riqueza natural, economicamente a região do Vale do Ribeira é a mais pobre do estado de São Paulo. Seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), 0747, é inferior ao do estado de Roraima, que figura 15 posições abaixo de São Paulo no ranking. Embora o plantio da árvore de pinus e a criação de gado venham crescendo expressivamente, as principais atividades econômicas da região ainda são o cultivo de banana, chá preto e a pesca. Nas estradas sinuosas que levam às cidades do Vale, áreas preservadas se misturam a partes tomadas pela monocultura de alguns desses itens.


"Não há uma proposta para a formação de profissionais para o turismo sustentável, que é uma das potencialidades da região", relata Tamara Carolina da Silva, funcionária do Posto de Informações Turísticas de Eldorado. No que diz respeito às políticas públicas voltadas às diferentes áreas, é senso comum entre os entrevistados que elas são quase inexistentes ou ineficazes por lá. "O Vale do Ribeira tem sido um laboratório de políticas públicas não muito bem-sucedidas", avalia Pedro Roberto Jacobi, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. Para se conseguir um exame ambulatorial mais complexo, os moradores da região esperam meses. Só há uma universidade pública em todo o Vale do Ribeira, localizada no município de Registro.


A topografia acidentada e as diversas áreas de preservação ambiental não permitem que o Vale do Ribeira acompanhe a média de desenvolvimento das demais regiões do estado. Entre os moradores da área, é consenso que o local deve se desenvolver com base no turismo sustentável e na agricultura. Mas há divergências se esta última deve ser conduzida por pequenos agricultores ou por grandes proprietários.


Motivo de discussões que às vezes ultrapassam os limites verbais, a futura usina Tijuco Alto é vendida como a solução para os problemas locais. Mas há quem a veja como o golpe de misericórdia para o Vale.


O interesse da companhia brasileira de Alumínio pela barragem remonta a 1987, cinco anos antes da trágica reviravolta na vida da família Woner. Naquele ano, com o intuito de gerar energia para sua fábrica na cidade de Alumínio, localizada na região de Sorocaba (SP), a empresa solicitou a autorização para o projeto de Tijuco Alto junto ao extinto Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (Dnaee). Gerar 50% de sua energia é parte da política de desenvolvimento da CBA, que depende da eletricidade para fabricar produtos como telhas, chapas, bobinas e vergalhões de alumínio. A outorga para a obra foi concedida em 1988. Ignorando a legislação vigente, no ano seguinte a CBA deu entrada no licenciamento diretamente em São Paulo e no Paraná. Por se tratar de um rio federal, que pertence aos dois estados, o procedimento deveria ser feito através do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). Mesmo assim, já em 1993 aconteceram as primeiras audiências públicas acerca do empreendimento. Somente cinco anos mais tarde a empresa, pertencente ao Grupo Votorantim, reconheceu a competência do órgão e iniciou o processo junto a ele.


Assim que a CBA deu entrada no licenciamento da obra, em 1989, a população da região se organizou em torno do MOAB, o Movimento dos Ameaçados por Barragens, resistência popular que há mais de 20 anos luta contra o desenvolvimento do projeto. À época, outras três usinas - estas não pertencentes ao Grupo Votorantim - assombravam a região: Itaóca, Funil e Batatal. Seus projetos estão atualmente parados, mas elas ainda são vistas como um perigo latente. "Não temos dúvidas de que se construírem Tijuco Alto, que está mais avançada, isso abrirá precedente para as demais usinas", afirma a freira Angela Biagioni, militante do MOAB desde 1990. O bairro onde Ângela mora em Eldorado, Vila Nova Esperança, seria justamente o local onde os trabalhadores ficariam abrigados durante a construção da hidrelétrica de Batatal.


Após uma série de eventos, incluindo dois EIA/ RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental), em 1997 e 2003, que foram reprovados pelo Ibama, a CBA foi obrigada a apresentar um novo estudo, o que só foi ocorrer em outubro de 2005. Nesse meio-tempo, a população local, que seria a principal afetada pela barragem, não era informada e tampouco consultada acerca do andamento do processo. Pelo contrário: segundo relatos, os moradores da região estariam sendo ludibriados pela empresa.


A cerca de 70 quilômetros de Ribeira está localizada a comunidade quilombola de Pedro Salu. Uma das habitantes, Plarinda Andrade de Matos, 50 anos, se recorda que no início dos anos 2000 - mais de uma década após o processo de licenciamento da hidrelétrica ter se iniciado -, representantes da CBA tenta ram contato com os moradores do local. "Depois que umas moças do Ministério Público de São Paulo e da Secretaria do Meio Ambiente de Brasília passaram por aqui para falar do mal que a obra poderia trazer, eles [representantes da CBA] apareceram. Falaram que não era pra acreditar nas moças, que a obra não ia atrapalhar nada. Vieram tapear a gente. Mas a gente já tava informado", ela relata.


Tijuco Alto não afetaria diretamente a comunidade de Plarinda, mas ela teme o impacto que a usina pode causar em toda a bacia hidrográfica do Ribeira de Iguape. Segundo um relatório emitido em 1993 pela Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental), a obra da usina, entre outros prejuízos, pode colaborar para a contaminação das águas por metais pesados - o rio já está contaminado por chumbo -, além de diminuir a produção pesqueira, alagar uma área de 11 mil hectares e inundar duas cavernas.


A inundação dessas cavidades, aliás, é um dos motivos pelos quais a licença para a obra ainda não foi concedida. O outro motivo é relacionado à revalidação do direito ao uso dos recursos hídricos do rio, que depende da aprovação da Agência Nacional de Águas (ANA).


No início dos anos 90, o agricultor Miguel Woner também foi procurado pela CBA. "Me prometeram dois alqueires de terra com água, luz elétrica e três anos de supermercado pago", ele conta. Além disso, Miguel recorda que a CBA chegou a patrocinar um churrasco e uma viagem para ele e outras pessoas da região até São Paulo. Na ocasião, eles teriam ido participar de uma manifestação em prol da barragem.


"Nessa época, eles [a CBA] precisavam de apoio popular, queriam vender o peixe de qualquer jeito, prometiam de tudo", avalia José Roberto Pereira (PT), um dos nove vereadores do município de Ribeira e um dos principais opositores ao projeto, que afirma que a cidade teve uma considerável evasão populacional desde a ameaça da barragem. Atualmente com cerca de 3,5 mil moradores, Ribeira já chegou a ter quase cinco mil habitantes. "A maior parte das pessoas foi embora por conta dessa história da usina", denuncia o vereador. "A CBA já tem essa dívida com a gente."


Pereira alega que, no fim dos anos 80, com os rumores de que a barragem inundaria diversas propriedades, os moradores começaram a vender suas terras a preços até três vezes inferiores aos praticados. Ele conta que atravessadores as compravam e, em vez de registrá-las em seus nomes, tornavam-se procuradores e as vendiam direto para a empresa do Grupo Votorantim.


"Tinha gente que andava a cavalo com uma máquina de escrever pendurada só pra comprar terra na zona rural e revender para a CBA. A população não sabia direito o que tava acontecendo. Todo mundo se sentia ameaçado e, com medo de perder a propriedade, vendia ela por qualquer valor", relata Pereira. "Lá por 1994, 95, o pessoal começou a perceber as falcatruas e a vender por um preço melhor. Quando a propriedade pertencia a um posseiro que não tinha a documentação regularizada, a empresa oferecia um emprego para a pessoa e fazia ela mudar para perto do trabalho. O cara ficava uns cinco, seis meses na empresa e depois era mandado embora. Era o tempo necessário para a CBA comprar o terreno direto com o proprietário de papel passado, que, pela lei, já tinha perdido os direitos da terra por usucapião. Muitas das pessoas que foram vítimas disso hoje vivem em favelas, como a [Vila] Zumbi, em Curitiba."


Leonardo Guerra Lourenço Gomes, da controladoria da Votorantim Energia, setor responsável pelo projeto, aceitou conversar com a reportagem por telefone, mas desistiu da ideia logo no início da entrevista. Procurada durante mais de dois meses para falar sobre o assunto, a empresa não negou as denúncias do vereador. Sobre elas, a CBA, por meio de sua assessoria de imprensa, se restringiu a afirmar que adquiriu 377 imóveis de 286 proprietários, somando cerca de 60% das terras necessárias ao empreendimento. A legislação vigente até 1999 determinava que o empreendedor deveria comprar ao menos 70% das terras a serem utilizadas. A atual legislação, no entanto, proíbe que a empresa faça isso antes de a licença de instalação ser emitida.


Não podendo mais comprar terras, a CBA vem financiando a campanha de diversos políticos da região. Na eleição passada, a empresa do Grupo Votorantim doou um montante de R$ 100 mil a diversos candidatos a prefeito das cidades do Vale do Ribeira. Nos municípios de Ribeira e Adrianópolis, por exemplo, candidatos rivais receberam doações da Companhia. João Manoel Pampanini, atual prefeito da cidade paranaense, foi beneficiado com a verba. Gidioni de Oliveira Macedo, prefeito de Ribeira, também. Ambos são filiados ao PT. Em Eldorado, onde está sediado o MOAB, José Arai da Selva Soares (PMDB) recebeu R$ 6 mil da empresa, sendo o único vereador da região a se beneficiar com uma doação da CBA.


Através de sua assessoria, a empresa afirmou que "as doações a partidos políticos e seus candidatos são instrumentos legítimos que fortalecem o processo eleitoral e as instituições democráticas do país".


Carregando um histórico de falta de diálogo e atitudes questionáveis, a CBA realizou novas audiências públicas em julho de 2007. Dessa vez, com o aval do Ibama. Os eventos aconteceram nos municípios de Cerro Azul, Adrianópolis, Ribeira, Registro e Eldorado.


Miguel Woner esteve na audiência em Ribeira, mas, apesar de ser contra a obra, não se manifestou: "Eu ia levantar no meio de um povão daquele? Não tenho cultura de nada, não sei nem conversar direito, ia falar o quê?", desculpa-se.


"Mesmo tendo subutilizado o microfone, a população presente nos eventos foi massivamente contrária ao projeto", afirma a freira Angela Biagioni.


Antes e depois das audiências, foram protocolados vários documentos de apoio e repúdio à obra. Os favoráveis vêm de organizações como a Associação dos Bananicultores do Vale do Ribeira e do Sindicato Rural de Registro. Já os contrários foram protocolados por entidades como a Associação Sindical dos Trabalhadores da Agricultura Familiar da Região do Vale do Ribeira (ASSTRAF), pelos participantes da assembleia popular Luta pela Terra no Vale do Ribeira e pelas comunidades quilombolas da região


As principais críticas ao EIA/RIMA dizem respeito ao fato de ele não levar em conta a mata nativa, que se regenerou após a população abandonar o local, e à própria estrutura do estudo, que é feito por uma empresa contratada pelo empreendedor. "Eu até concordo que a Companhia é que deve bancar o projeto, mas ela não deveria poder escolher a empresa que vai fazer o estudo", contesta o vereador José Roberto Pereira.


Além do MOAB, mais de dez entidades, entre sindicatos de trabalhadores rurais, associações quilombolas, organizações ambientais e colônias de pescadores, se opõem à barragem. Todos questionam a abrangência dos danos ambientais da obra e os prejuízos que ela pode acarretar aos moradores. Mesmo com a população organizada sendo majoritariamente contra o projeto, o Ibama emitiu um Parecer Conclusivo favorável ao mesmo em fevereiro de 2008. No documento, o órgão afirma "que o empreendimento UHE Tijuco Alto apresenta aspectos positivos que podem ser potencializados, e impactos negativos que podem ser evitados, mitigados ou compensados pela implementação dos programas ambientais adequados [sic]".


No mesmo período, o Departamento de Avaliação de Impacto Ambiental (DAIA) da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo emitiu um parecer técnico com diversas críticas ao Estudo de Impacto Ambiental. Uma delas diz respeito ao Programa de Controle Ambiental das Obras apresentado no estudo, considerado "muito genérico e superficial". Além disso, por meio de seu parecer, o DAIA afirma que "alguns impactos não foram devidamente avaliados, e para alguns impactos não foram propostas medidas mitigadoras/compensatórias adequadas". Outra observação aponta ainda que "em função de escala de trabalho e de nível de detalhamento do projeto [o EIA] não permite uma apreciação mais profunda dos impactos ambientais do empreendimento".


Para o professor Jacobi, o maior problema de Tijuco Alto é, de fato, o impacto ambiental da obra. "Esse aspecto não pode ser negligenciado", ele alerta.


Atualmente, não se sabe ao certo se o projeto de Tijuco Alto será levado adiante. Em uma certa noite de sexta-feira, em uma pastelaria no centro de Eldorado, município onde está a sede do MOAB e a famosa Caverna do Diabo, a incerteza ficou mais clara. Por lá,Antonio e Wagner, os irmãos que são proprietários e funcionários do estabelecimento, não sabem dizer se a usina vai ser mesmo construída e evitam falar sobre o assunto. Ao se sentir mais à vontade, no entanto, Antonio deixa seu posicionamento implícito: "Tem que ver pra quem que é essa usina, né? Essa energia vai pra quem? Para as cidades da região é que não vem". De fato, apesar de fazer parte do SIN (Sistema Integrado Nacional), a princípio toda a produção de Tijuco Alto seria destinada à fábrica da CBA, em Alumínio.


Já o empresário Antonio Cunha, dono de uma pousada na região, diz acreditar que a barragem atrairia mais turistas, geraria mais empregos e colaboraria para o desenvolvimento do Vale, que é a parte mais pobre do estado de São Paulo. "O MOAB e os quilombolas é que emperram a usina", reclama. Cunha ainda menciona o controle das cheias nos municípios que ficam rio abaixo como uma das vantagens da barragem. Em seu parecer, o Ibama também destaca esse aspecto como um dos benefícios que a obra pode levar ao Vale. E esse é, de fato, um ponto importante para a região, que ainda guarda amargas lembranças da enchente que a assolou em 1997. Mas apesar de essa ser a benfeitoria mais palpável do empreendimento, ela é pouco citada pelos entusiastas da barragem, que centram o foco de seus discursos no desenvolvimento econômico - um aspecto sedutor em se tratando da região mais pobre do estado mais desenvolvido do país.


Com base em estudos feitos pela própria CBA, a ONG Instituto Socioambiental (ISA) aponta que a ideia de que a obra impulsionará o desenvolvimento da região é questionável. Durante a construção da barragem, que levará cinco anos, deve haver um pico de ofertas de emprego que abarcará 1,5 mil pessoas. Mas apenas cerca de 150 desses empregados serão moradores das cidades vizinhas. Concluído, o empreendimento deverá gerar apenas 123 vagas de trabalho, em sua maioria ocupadas por técnicos - os quais, geralmente, vêm de fora. Além disso, a vinda de mais de mil trabalhadores de outras áreas pode ocasionar, a médio e longo prazo, uma série de problemas. Inicialmente, deve haver uma movimentação dos setores de comércio e serviços dos municípios da vizinhança, aquecendo a frágil economia local. Após o fim da obra, porém, há o risco de muitas dessas pessoas se instalarem na região. "Isso pode sobrecarregar os serviços públicos. A gente não tem hospital, escola, nem emprego permanente pra esse povo todo. Depois da barragem eles vão fazer o quê?", questiona o vereador Pereira.


"A construção de uma hidrelétrica é temporária", complementa o professor Jacobi. "Ela utiliza mão de obra durante um tempo e depois acaba. Pensar o desenvolvimento em cima disso é errado, pode criar uma lógica urbana parasitária, que não tem condições de se desenvolver." Para ele, um dos caminhos possíveis para o desenvolvimento socioeconômico da região é o fortalecimento das cooperativas e melhores condições para que os pequenos agricultores e as pessoas de baixa renda obtenham créditos.

Enquanto não é tomada a decisão sobre se a obra acontecerá ou não, as incertezas pairam sobre os moradores do Vale do Ribeira. Em relação ao comportamento da população no que diz respeito à barragem, a tendência é que os mais abastados se posicionem favoravelmente e os mais pobres sejam contrários. Essa lógica faz algum sentido se levarmos em conta as histórias do empresário Antonio Cunha e do agricultor Miguel Woner. A pousada do primeiro é uma das mais bem equipadas da região. A casa do outro mal tem um quintal. Além da questão de classe, os dois diferem no que diz respeito à trajetória de Tijuco Alto. Para Antonio, o projeto trará o progresso. Para Miguel, assim como para muitos outros habitantes, já causou prejuízo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Vídeo O Vale da Resistência

O vídeo O Vale da Resistência conta a história do povo quilombola, ribeirinho e caiçara do Vale do Ribeira, organizados no MOAB (Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira), que em 2009 completaram 20 anos de luta e resistência contra a construção da Barragem de Tijuco Alto, no Rio Ribeira de Iguape, entre os estados de São Paulo e Paraná.

O vídeo é fruto de uma parceria entre o MOAB e o MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) nacional. Imagens de arquivo, capturadas por estudantes e parceiros do MOAB, garantem um panorama histórico da luta dos atingidos por barragens do Vale. Passeatas, manifestações e audiências públicas foram registradas, mostrando a atuação do Movimento durante esses 20 anos.

Caso a barragem de Tijuco Alto seja construída, ela aumentará as vendas e o lucro da CBA, poucos serão os empregos gerados e o Vale do Ribeira herdará todos os impactos socioambientais. É por isso que o povo do vale do Ribeira, organizado no MOAB e no MAB, lutam há vinte anos contra isso.

Assista o vídeo no site do MAB no link: http://www.mabnacional.org.br/noticias/221209_video_vale_ribeira.html

Setor de Comunicação – MAB

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

terça-feira, 24 de novembro de 2009

EM EMOCIANANTE CELEBRAÇÃO, MOAB COMPLETA 20 ANOS DE RESISTÊNCIA

Sábado, 21 de Novembro de 2009

A celebração teve início com uma mística no Porto de Iporanga, às margens do nosso grande rio...
Em memória daqueles que morreram pelo Ribeira de Iguape!

Terra Sim! Barragem Não!

Com certeza ecoaremos isto ainda por muitos e muitos anos!

Vejam as 12 fotos abaixo...

TOM, JOVEM LUTADOR PELAS CAUSAS DO VALE DO RIBEIRA, FAZ UM HISTÓRICO DA REGIÃO


TODAS AS COMUNIDADES NEGRAS DO VALE DO RIBEIRA SÃO APRESENTADAS


COMUNIDADES QUILOMBOLAS - 20 ANOS DE RESISTÊNCIA E LUTA CONTRA BARRAGENS NO RIBEIRA


UMA LINDA COMPOSIÇÃO APARECE PARA HOMENAGEAR O MOAB


QUANDO ESTA LUTA COMEÇOU, TINHA NO MEIO IRMÃ SUELI - 25 ANOS DE VIDA PASTORINHA


OS NOMES DAQUELES QUE MORRERAM EM DEFESA DA LIBERDADE DO POVO DO VALE DO RIBEIRA


JUVENTUDE... PRESENTE!


DIVERSAS APRESENTAÇÕES DE UMA GRANDE DIVERSIDADE DE COMUNIDADES...


COMEÇA O FORRÓ


IRMÃ SUELI COMEMORA OS 25 ANOS DE VIDA PASTORINHA COM A IRMÃ ÂNGELA


25 anos de luta, seriedade e transmitindo alegria e confiança às comunidades quilombolas