terça-feira, 25 de março de 2008

Reportagem da Revista Viração sobre a Ocupação do IBAMA

Manifestação contra barragem no Vale do Ribeira (SP)

http://www.revistaviracao.org.br/artigo.php?id=1564

Sálua de Oliveira, da Redação (14/03/2008)

Jardins, bairro nobre de São Paulo. Desembargadores, estilistas, moderninhos e manifestantes ocuparam o Manifestação IBAMAmesmo espaço na manhã e tarde da última quarta-feira, 12 de março. Alguns apenas como transeuntes, outros para ocupar a rua em frente ao prédio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) - SP.

A ocupação de vias, prédios e monumentos públicos sempre traz policiamento, pouco ou muito, dependendo da região. No caso da ocupação do prédio e da rua do Ibama, havia muitos policiais e carros, fazendo uma barreira entre as pessoas de fora e os manifestantes dentro do prédio, ocupado por volta das cinco da manhã, por vários movimentos sociais vindos de ônibus da região do Vale do Ribeira.

Um público que se apropria de outro espaço público é sempre motivo de encrenca (afinal, não é público mesmo?), mas vamos à razão de todo o ato: a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) ganhou, no começo de março, um parecer favorável do Ibama para uma barragem no Vale, para a construção da Hidrelétrica de Tijuco Alto. Ela serviria basicamente para a produção de alumínio, não oferecendo energia ou água para os moradores do seu entorno. A Companhia ter conseguido algo que há mais de 20 anos entidades ribeirinhas lutam contra, foi a gota d água para a população, que cansou de esperar a porta do Instituto se abrir e resolveu entrar sem convite mesmo.

"A hidrelétrica afetaria todas as cidades por onde o rio Ribeira passa. Eldorado, Sete barras, Registro, Iguape, captam água para distribuição. Fazendo essa barragem, além de várias conseqüências ambientais, teria um sério impacto na qualidade da água, porque ao mesmo tempo em que elas captam água, elas também jogam esgoto. Elas iriam tomar o quê? Qual a qualidade desta água que nós iríamos tomar?", questiona Maria Sueli Berlanga da cidade de Eldorado.

Outros problemas não foram analisados ao levarem em conta a autorização para a obra. Um grande número de cavernas em um solo característico da região seriam afetadas pelas explosões e inundações. Contradizendo uma lei rígida de preservação, que chegou até a fechar as cavernas para a visitação, atrapalhando o turismo em diversos locais.

A população deixou sua posição bem clara durante o ano de 2007 opondo-se à usina em todas as quatro audiências públicas ocorridas em julho, nas cidades de Serro Azul, Ribeira, Eldorado e Registro. Porém, os funcionários do IBAMA estavam em greve neste período e não puderam comparecer em todas, dificultando o debate. Com essa atitude, Tijuco Alto passaria a inaugurar uma série de outros empreendimentos para benefícios de empresas, no Vale do Ribeira, discutidos desde a década de 50, mas só possíveis com uma grande Hidrelétrica para produzir energia.

Maria Sueli retoma o primeiro questionamento, sobre a ocupação: "O rio é um bem público. Então, quer dizer que eu posso ir à Praça de Eldorado, que é onde eu moro, e pegar a praça para eu morar, por que eu gosto da praça? Por que se o Antonio Ermínio de Moraes - Dono da CBA - pode, por que eu não posso? Vou fazer uma casa na Praça de Eldorado. Ou aqui na Praça da Sé também!"

Não haverá outra avaliação de campo, para um possível outro parecer, como os manifestantes queriam. Ficou fechado um documento paralisando a autorização até todas as questões levantadas nas audiências públicas serem respondidas: "O que vai acontecer é uma audiência não pública no Vale. Com o presidente do Ibama", informou André Murtinho Ribeiro Chaves, professor que participou da reunião com representantes do Instituto.

A data para esse encontro não foi definida, mas a saída dos ribeirinhos do prédio do Ibama teve dia e hora marcados: 12 de março, 17h.

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